Os pais de um meu colega, ao fim de quarenta e tal anos de casados separaram-se; ou melhor, a mãe teve que sair de casa porque o pai ameaçava matá-la, obrigando a que tal saída se fizesse com a roupa que tinha no corpo, nem lhe permitindo que lá voltasse, tendo para tal mudado a fechadura.
Aos filhos, dizia o pai, ai daquele que se metesse, pois a vítima dessa intromissão seria em primeiro lugar a mãe. Porque os planos eram definitivos, ao fim de algum tempo mudou de casa e de terra, para na nova casa acolher outra mulher, muito mais nova.
As coisas boas da vida, são insípidas para aquele que vive com o coração acabrunhado, constrangido por algum sofrimento. Era a falta da necessária paz ou tranquilidade que não permitia ao Rui aproveitar o momento, quando jantávamos na estalagem do castelo de Palmela.
Procurando não ferir as regras da boa educação, apressei a minha saída da mesa para ir ter com o Rui, receoso de que algo se estivesse a passar com ele. De facto, a razão pela qual ele saíra antes de poder dar-se o jantar como findo, não foi para desfrutar do aprazível lugar numa agradável noite de verão, mas por estar demasiadamente inquieto por algo que eu ainda desconhecia.
Foi então que, já irremediavelmente convencido de que tinha sido chamado a carregar com a triste sorte, o meu colega me expôs as razões da sua amargura.
Perante o seu sofrimento e tão manifesta impotência para restabelecer a normalidade, surge em mim, veloz, a certeza de que poderia ser reparável a situação apresentada.
Ocorreu-me pedir-lhe uma fotografia dos pais, certo de que com isso obteria melhores resultados junto daqueles a quem ia pedir que se juntassem a esta causa. Numa atitude própria de quem, em desespero, aceita toda e qualquer oferta, respondeu-me que já tinham tentado várias “pessoas entendidas” em vários pontos do país, sem êxito, mas que não lhe custava nada trazer a fotografia no dia seguinte e que, se conseguisse, me pagariam entre ele e os irmãos o que fosse necessário.
Para lhe devolver uma réstia da esperança que tinha perdido, disse-lhe que, não obstante as coisas já se encontrarem no ponto em que estavam, a reconciliação ainda era possível, sem no entanto lhe dizer o que ia fazer.
No dia seguinte, aquele pobre filho entregou-me a fotografia pedida, desconhecendo por completo se eu era mais um crente ou praticante das artes esotéricas (soa mais fino dizer deste modo do que dizer bruxarias).
Quando regressava a casa no final de um dia de trabalho, o meu pensamento era ocupado com o que via ser o sofrimento do meu colega, com tudo o que imaginava poder estar a viver sua mãe e, ao mesmo tempo, com aquela rotura matrimonial que as forças do mal conseguiram. Estava assim profundamente absorvido em tais pensamentos quando, no espaço mais interior do meu ser, se assim posso dizer, desabou uma torrente de emoção e, já com os olhos a darem sinal daquilo que estava a acontecer no meu interior, de uma forma tão estrondosa que devo ter sido ouvido em todo o Céu, gritei: Paaaai!!!
A oração que eu mesmo tenho experimentado como mais eficaz, dela dando aqui público testemunho para exortar aqueles que ainda crêem, é aquela que resulta da compaixão por quem se vê incapaz de se libertar da acção do Maligno, consciente ao mesmo tempo do quão amada por Deus continua a ser a pessoa, ainda que aos olhos do mundo seja culpada pelo mal de que sofre.
Depois de me ter dirigido a Deus Pai naquela tão peculiar forma de oração, apreensivo, olhei para as pessoas que comigo viajavam apinhadas no autocarro, e vi que ninguém estava a reparar em mim, sinal de que não houve repercussão do meu grito no espaço físico.
Estávamos no mês de Junho de 1993, e à semelhança do Mês de Maria, continuámos no meu bairro, onde germinava então a actual comunidade paroquial, a celebrar o Mês do Sagrado Coração de Jesus com a reza diária do Terço em comunidade*. No final do Terço, momento em que todos nos juntávamos às intenções particulares de cada um, mostrei aos presentes a fotografia daquele casal por quem pedi que uníssemos as nossas orações, depois de lhes ter dito o que se passava.
Alguém sugeriu que o fizéssemos todos de mãos dadas. Alguns rostos deixavam perceber alguma emoção, e a mesma pessoa que fizera a anterior sugestão, como que em resposta ao meu secreto desejo, propôs que fizéssemos todos, uma novena. Ainda esta não tinha terminado, quando, felicíssimo, o meu colega se me dirige a perguntar quanto me devia, mostrando-se ao mesmo tempo curioso em saber quais os métodos que usei, pois, se já tinham corrido tudo quanto era “gente entendida”, gasto com isso algumas somas, e nada dos resultados esperados...
Contente, respondi-lhe com um sorriso, ficando-me por aí, por entender que não era ainda o momento para ele receber a catequese do acontecimento. E quanto aos métodos, disse-lhe serem os mais simples e ao mesmo tempo os mais eficazes.
Alguns dias depois voltou ao assunto, dizendo que não conseguia entender a mudança radical que houvera no pai, que foi repentina, de um dia para o outro...
Entendendo que já seria o momento oportuno, disse-lhe então como tudo acontecera. A partir dali, também a sua vida mudou. Passou a ver os seus problemas pessoais e familiares numa perspectiva cristã, e juntamente com a esposa e a filha, passaram a fazer da missa e outros sacramentos prática habitual.
A compaixão, que está na origem de todo o impulso que toca verdadeiramente o Coração de Deus, é hoje negada e esvaziada do seu verdadeiro sentido cristão por alguns “filósofos” que abundam na própria Igreja, como se já não bastasse o mal causado por quantos estão declaradamente contra Ela, que, esses sim, vertem todos os dias do muito que sobra à sua "sabedoria".
Sirva este caso como farol para muitos que procuram a solução para os seus problemas, e os que se sentem incapazes para levarem por diante o combate que há-de erradicar o mal, procurem um piedoso sacerdote de Cristo, tapando os ouvidos a todos quantos possam indicar soluções fora d'Ele.
Que a Sua Paz desça aos corações mais atribulados dos leitores.
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* Na minha comunidade paroquial, já só se celebra o Mês de Maria, parece que Jesus ainda não tocou muitos corações...
1 comentário:
sei que a fé move montanhas,que seja assim para todas as pessoas do mundo continuar a acreditar que Deus nos ajuda eu também vou tentar acreditar que um dia vou ser feliz
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