segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Temos que ser pais “maus”

O texto que se segue, que me chegou por e-mail em formato power point, foi publicado (ainda segundo essa mesma apresentação) por ocasião da morte de Tarcila Gusmão e de Eduarda Dourado, ambas de 16 anos, em Maracaípe – Porto de Galinhas (Brasil). Depois de 13 dias desaparecidas, as mães revelaram desconhecer os proprietários da casa onde as filhas tinham ido curtir o fim-de-semana. A tragédia abalou a opinião pública e o crime permanece sem resposta (à data da publicação no Brasil).

O professor de Ética e Cidadania da escola Objectivo/Americana, Sr. Roberto Candelori, aproveitou este texto para dá-lo a todos os alunos da sala de aula, para que o entregassem a seus pais. A única condição solicitada pelo professor foi de que cada aluno ficasse ao lado dos pais até que terminassem a leitura.


MÃES MÁS
(Dr. Carlos Hecktheuer, médico psiquiatra)

«Um dia quando os meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e mães, eu hei de dizer-lhes:

- Eu amei-vos o suficiente para ter perguntado aonde vão, com quem vão e a que horas regressarão.

- Eu amei-vos o suficiente para não ter ficado em silêncio e fazer com que voçês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia.

- Eu amei-vos o suficiente para vos fazer pagar os rebuçados que tiraram do supermercado ou revistas do jornaleiro, e vos fazer dizer ao dono: “Nós tirámos isto ontem e queríamos pagar”.

- Eu amei-vos o suficiente para ter ficado em pé, junto de voçês, duas horas, enquanto limpavam o vosso quarto, tarefa que eu teria feito em 15 minutos.

- Eu amei-vos o suficiente para vos deixar ver além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos.
- Eu amei-vos o suficiente para vos deixar assumir a responsabilidade das vossas acções, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração.

- Mais do que tudo, eu amei-vos o suficiente para para vos dizer NÃO, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso (e em alguns momentos até odiaram).

Estas eram as mais difíceis batalhas de todas. Estou contente, venci… Porque no final vocês venceram também! E qualquer dia, quando os meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e mães; quando eles lhes perguntarem se a sua mãe era má, os meus filhos vão-lhes dizer:
“Sim, a nossa mãe era má. Era a mãe mis má do mundo… As outras crianças comiam doces no café e nós só tínhamos que comer cereais, ovos, torradas. As outras crianças bebiam refrigerantes e comiam batatas fritas e sorvetes ao almoço e nós tínhamos que comer arroz, feijão, carne, legumes e frutas.

Tinha que saber quem eram os nossos amigos e o que nós fazíamos com eles.

Insistia que lhe disséssemos com quem íamos sair, mesmo que demorássemos apenas uma hora ou menos.

Ela insistia sempre connosco para que lhe disséssemos sempre a verdade e apenas a verdade.

E quando éramos adolescentes, ela conseguia até ler os nossos pensamentos. A nossa vida era mesmo chata!

Ela não deixava os nossos amigos tocarem a buzina para que saíssemos; tinham que subir, bater à porta, para ela os conhecer.

Enquanto todos podiam voltar tarde da noite com 12 anos, tivemos que esperar pelo menos pelos 16 para chegar um pouco mais tarde, e aquela chata levantava-se para saber se a festa foi boa (só para ver como estávamos ao voltar).

Por causa da nossa mãe, nós perdemos imensas experiências na adolescência.

- Nenhum de nós esteve envolvido com drogas, em roubo, em actos de vandalismo, em violação de propriedade, nem fomos presos por nenhum crime.

FOI TUDO POR CAUSA DELA!

Agora que já somos adultos, honestos e educados, estamos a fazer o melhor para sermos “PAIS MAUS”, como a minha mãe foi. EU ACHO QUE ESTE É UM DOS MALES DO MUNDO DE HOJE: NÃO HÁ SUFICIENTES MÃES MÁS!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Correram cartomantes, videntes e outros bruxos. Por fim o caso ficou resolvido.

Os pais de um meu colega, ao fim de quarenta e tal anos de casados separaram-se; ou melhor, a mãe teve que sair de casa porque o pai ameaçava matá-la, obrigando a que tal saída se fizesse com a roupa que tinha no corpo, nem lhe permitindo que lá voltasse, tendo para tal mudado a fechadura.

Aos filhos, dizia o pai, ai daquele que se metesse, pois a vítima dessa intromissão seria em primeiro lugar a mãe. Porque os planos eram definitivos, ao fim de algum tempo mudou de casa e de terra, para na nova casa acolher outra mulher, muito mais nova.

As coisas boas da vida, são insípidas para aquele que vive com o coração acabrunhado, constrangido por algum sofrimento. Era a falta da necessária paz ou tranquilidade que não permitia ao Rui aproveitar o momento, quando jantávamos na estalagem do castelo de Palmela.

Procurando não ferir as regras da boa educação, apressei a minha saída da mesa para ir ter com o Rui, receoso de que algo se estivesse a passar com ele. De facto, a razão pela qual ele saíra antes de poder dar-se o jantar como findo, não foi para desfrutar do aprazível lugar numa agradável noite de verão, mas por estar demasiadamente inquieto por algo que eu ainda desconhecia.

Foi então que, já irremediavelmente convencido de que tinha sido chamado a carregar com a triste sorte, o meu colega me expôs as razões da sua amargura.

Perante o seu sofrimento e tão manifesta impotência para restabelecer a normalidade, surge em mim, veloz, a certeza de que poderia ser reparável a situação apresentada.

Ocorreu-me pedir-lhe uma fotografia dos pais, certo de que com isso obteria melhores resultados junto daqueles a quem ia pedir que se juntassem a esta causa. Numa atitude própria de quem, em desespero, aceita toda e qualquer oferta, respondeu-me que já tinham tentado várias “pessoas entendidas” em vários pontos do país, sem êxito, mas que não lhe custava nada trazer a fotografia no dia seguinte e que, se conseguisse, me pagariam entre ele e os irmãos o que fosse necessário.

Para lhe devolver uma réstia da esperança que tinha perdido, disse-lhe que, não obstante as coisas já se encontrarem no ponto em que estavam, a reconciliação ainda era possível, sem no entanto lhe dizer o que ia fazer.

No dia seguinte, aquele pobre filho entregou-me a fotografia pedida, desconhecendo por completo se eu era mais um crente ou praticante das artes esotéricas (soa mais fino dizer deste modo do que dizer bruxarias).

Quando regressava a casa no final de um dia de trabalho, o meu pensamento era ocupado com o que via ser o sofrimento do meu colega, com tudo o que imaginava poder estar a viver sua mãe e, ao mesmo tempo, com aquela rotura matrimonial que as forças do mal conseguiram. Estava assim profundamente absorvido em tais pensamentos quando, no espaço mais interior do meu ser, se assim posso dizer, desabou uma torrente de emoção e, já com os olhos a darem sinal daquilo que estava a acontecer no meu interior, de uma forma tão estrondosa que devo ter sido ouvido em todo o Céu, gritei: Paaaai!!!

A oração que eu mesmo tenho experimentado como mais eficaz, dela dando aqui público testemunho para exortar aqueles que ainda crêem, é aquela que resulta da compaixão por quem se vê incapaz de se libertar da acção do Maligno, consciente ao mesmo tempo do quão amada por Deus continua a ser a pessoa, ainda que aos olhos do mundo seja culpada pelo mal de que sofre.

Depois de me ter dirigido a Deus Pai naquela tão peculiar forma de oração, apreensivo, olhei para as pessoas que comigo viajavam apinhadas no autocarro, e vi que ninguém estava a reparar em mim, sinal de que não houve repercussão do meu grito no espaço físico.

Estávamos no mês de Junho de 1993, e à semelhança do Mês de Maria, continuámos no meu bairro, onde germinava então a actual comunidade paroquial, a celebrar o Mês do Sagrado Coração de Jesus com a reza diária do Terço em comunidade*. No final do Terço, momento em que todos nos juntávamos às intenções particulares de cada um, mostrei aos presentes a fotografia daquele casal por quem pedi que uníssemos as nossas orações, depois de lhes ter dito o que se passava.

Alguém sugeriu que o fizéssemos todos de mãos dadas. Alguns rostos deixavam perceber alguma emoção, e a mesma pessoa que fizera a anterior sugestão, como que em resposta ao meu secreto desejo, propôs que fizéssemos todos, uma novena. Ainda esta não tinha terminado, quando, felicíssimo, o meu colega se me dirige a perguntar quanto me devia, mostrando-se ao mesmo tempo curioso em saber quais os métodos que usei, pois, se já tinham corrido tudo quanto era “gente entendida”, gasto com isso algumas somas, e nada dos resultados esperados...

Contente, respondi-lhe com um sorriso, ficando-me por aí, por entender que não era ainda o momento para ele receber a catequese do acontecimento. E quanto aos métodos, disse-lhe serem os mais simples e ao mesmo tempo os mais eficazes.

Alguns dias depois voltou ao assunto, dizendo que não conseguia entender a mudança radical que houvera no pai, que foi repentina, de um dia para o outro...

Entendendo que já seria o momento oportuno, disse-lhe então como tudo acontecera. A partir dali, também a sua vida mudou. Passou a ver os seus problemas pessoais e familiares numa perspectiva cristã, e juntamente com a esposa e a filha, passaram a fazer da missa e outros sacramentos prática habitual.

A compaixão, que está na origem de todo o impulso que toca verdadeiramente o Coração de Deus, é hoje negada e esvaziada do seu verdadeiro sentido cristão por alguns “filósofos” que abundam na própria Igreja, como se já não bastasse o mal causado por quantos estão declaradamente contra Ela, que, esses sim, vertem todos os dias do muito que sobra à sua "sabedoria".

Sirva este caso como farol para muitos que procuram a solução para os seus problemas, e os que se sentem incapazes para levarem por diante o combate que há-de erradicar o mal, procurem um piedoso sacerdote de Cristo, tapando os ouvidos a todos quantos possam indicar soluções fora d'Ele.

Que a Sua Paz desça aos corações mais atribulados dos leitores.

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* Na minha comunidade paroquial, já só se celebra o Mês de Maria, parece que Jesus ainda não tocou muitos corações...

sábado, 16 de agosto de 2008

O bem que não vemos quando só olhamos o exterior

Como num infindável número de lugares, decorria também na minha comunidade paroquial o arraial de S. João. Confraternizando com uns enquanto comia a sardinha e o caldo verde, fui depois saudando este ou aquele, estando com outros um pouco mais. Coisa muito simples, o estar um pouco com alguém, mas para mim muito importante, sempre que consigo situar-me com a pessoa fora do corriqueiro, do banal, como é a tendência de estarmos sempre a sermos comentadores sem convite das coisas que mais respeito dizem à vida particular de alguém, das questões futebolísticas, novelescas ou outras do género.

Foi assim que me dirigi à D. Cecília, pedindo-lhe para me sentar junto dela, dado que estava sozinha e com uma carinha que não era a melhor. Nos escassos minutos que com ela estive, soube que o número de operações a que já tinha sido sujeita, já ia em doze, mais quatro, portanto, do que aquelas de que eu tinha conhecimento.

Pude ainda saber que, apesar de ser pessoa muito doente, a D. Cecília, quando deveria estar muito sossegada a convalescer da última operação, ainda se empenhou, muito para além do que seria suposto serem as suas forças, em ajudar à resolução de um sério problema de ordem social e higiénico-sanitária de um casal que vive próximo. Como admiro a D. Cecília! Pessoa com uma cruz tão pesada, e consegue transporta-la sem que aqueles com quem se cruza diariamente dela se apercebam.

Passando por outra mesa, para trocar um carinhoso abraço com uma amiga sobre quem também já escrevi (aquela viúva que na juventude “fugia” à mãe para ir tratar dos leprosos), aproveitei para conhecer um senhor que com ela se encontrava, dado que o conhecimento que dele tinha era apenas o vê-lo por vezes na Missa. Foi-me então apresentado o Sr. Borges, a quem perguntei o seu nome próprio. Esta minha amiga, entre outras coisas, disse-lhe que eu era catequista, ficando eu a saber que também ele o quis ser.

Quando seus filhos eram jovens, o Sr. Álvaro, é este o seu nome próprio, fazia com que outros jovens da aldeia fossem frequentando a sua casa, procurando assim ir sendo a luz possível nos caminhos tão inseguros dos jovens. Com os filhos já maiores e chegado à idade da reforma, viu-se liberto para poder dedicar-se a algo para o qual se sentia ser chamado. Disse então ao seu pároco que gostava de ser catequista.

Ao despedir-me do Sr. Álvaro, segurando carinhosamente em minhas mãos a sua mão, quis demonstrar-lhe o enorme respeito que me merecia, e beijei aquela mão que tanto bem já fizera em sua vida e continua a fazer. O que não lhe demonstrei, foi a tristeza que tive em saber que o seu pároco o impedira de se dedicar à catequese, alegando como desculpa o facto de a igreja ser fria, não sendo por isso boa para alguém em idade de reforma.

Vinte ou trinta anos depois, vim eu a conhecer o Sr. Álvaro, aproveitando ele agora todas as oportunidades que tem para ir a casa dos mais necessitados, auxiliando aquela minha amiga nesse trabalho de tanta entrega aos pobres. Nem os seus 87 anos o impedem de tão santo apostolado. Alguns dias depois, vim a saber que, ainda agora na sua terra, dificilmente alguém o encontrará em casa, porque anda sempre em Missão.

Não é de estranhar, portanto, que nenhum dos seus cinco filhos tolere aos irmãos que tenham em sua casa o pai um dia a mais do que a cada um pertence. Uma vez que está um mês em casa de cada um, aguardo com ansiedade o mês de Novembro, mês que penso que volte a calhar ao seu filho José, para eu fazer com os meus catequizandos um encontro que irá ser, não tenho dúvidas, marcante para todos nós, ao ser dirigido por quem sempre foi, afinal, catequista sem catecismo.

Soubesse, quem tem o poder para tomar decisões, reconhecer os possíveis mananciais de riqueza existentes em quem tem muitíssima mais experiência, e tudo quanto é área de actividade humana, não pondo de parte a eclesial, mais enriquecedoramente convergiria para o bem comum, mas, infelizmente, pululam por todo o lado pessoas como o outrora pároco do Sr. Álvaro…

Na sociedade, para aqueles que chegaram à idade da reforma, parece não haver mais lugar, desperdiçando-se assim tanta riqueza. Quão estultos são aqueles que parecem ter uma fixação pelo conceito de renovação, aplicando-o à melhor de todas as "matérias-primas", o capital humano.

A velhice confere autoridade, e prestígio os cabelos brancos que levaram uma vida íntegra, assim diz o Senhor, Deus, no segundo livro dos Macabeus (Cf. 2Mac 6, 23), dizendo ainda no livro de Job que, pela longevidade se chega à sabedoria (Cf. Jb 12, 12), mas nas sociedades ditas modernas, até a Palavra de Deus se procura reciclar, ficando apenas aquilo que não incomode as consciências... e o que é ainda mais grave, é o serem os próprios ministros sagrados que só parece preocuparem-se com agradarem ao povo, preocupando-se bem menos que o seu ministério seja do agrado de Deus. Tratam apenas do exterior, e agradados com o prestígio que daí lhes pode vir, deixam de ser capazes de chegar ao interior das almas, que é afinal a primeira e última razão do seu ministério.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Como controlar o vandalismo e a criminalidade

Muitos estudos e muitos debates tem havido acerca dos comportamentos marginais que até já começam a ser preocupantes dentro das próprias escolas, sem que daí se possa ao menos vislumbrar a assunção de medidas que nos permitam um sentimento de maior confiança no futuro.

A criminalidade tem vindo a progredir numa espiral que parece não mais parar, facto sobre o qual todos estaremos de acordo, estou certo. E como é que os governos, em Portugal e noutros países, respondem? Aumentando os efetivos das forças de segurança e apetrechando-as de meios capazes de poderem fazer frente à criminalidade (é assim que os políticos pensam…), e o único resultado garantido é o aumento da carga fiscal para o contribuinte…

Quantas vezes já vimos os nossos governantes virem a público defenderem uma qualquer tese, resultante de um estudo encomendado a algum organismo ou a pessoa de gabarito? E muitos desses estudos, à custa de quantos milhares de euros gastos ao contribuinte? E quantas vezes pudemos dizer que valeu a pena o custo de tais estudos, por terem sido fundamentais para a melhor decisão, por vezes de grande interesse nacional? Quisesse algum governo aceitar as sugestões que se seguem, já que até são a custo zero, e as as coisas mudariam radicalmente.

Pensando nas doenças neurológicas, sabemos hoje como a doença de Alzheimer, sendo degenerativa, começa por afectar as capacidades cognitivas, até que leva a pessoa à perda de quase todas as faculdades. Esta, como outras doenças do género, apodera-se da pessoa como que sub-repticiamente, pouco ou nada podendo fazer-se para a evitar. Será que um fenómeno idêntico tem vindo a atacar a maioria dos nossos políticos? Se a obesidade, o sedentarismo e algum outro factor conjugado, fazem da pessoa o alvo principal de enfartes e outros males, que nome poderão ter os factores que concorrem para aquilo que faz padecer a classe política e que começa por atacar-lhes a seriedade e a visão do bem comum?

Quanto a mim, a OMS ainda não se pronunciou quanto a esta nova doença, por não haver uma profilaxia que se possa levar a cabo para a combater, ou talvez por achar que a opinião pública não está preparada para enfrentar o choque psicológico que sofreria ao vê-la declarada como tal. Também degenerativa e com efeitos devastadores nas sociedades, é bem mais perigosa do que qualquer pandemia já ocorrida. Ela já é conhecida de muitos especialistas, mesmo não estando oficialmente reconhecida. Seu nome “científico” é, Política. Seus efeitos já todos conhecemos, basta olhar para o mundo, que está de pantanas.

Talvez a coisa melhorasse se, todo aquele que está na política e desempenha cargos públicos, fosse obrigado a ter como acessores um sociólogo e um psiquiatra, que em equipa trabalhariam empenhadamente com o infectado pela doença para protegerem a sociedade de alguma forma mais virulenta da política. No actual contexto, penso que só dessa forma se criariam as necessárias condições para que pudessem vir a ser tomadas as seguintes medidas, já que esta terrível doença combate ferozmente todos os corpos ainda sãos, impedindo-os de terem um papel mais preponderante:

1- Nas escolas, começando nos quatro primeiros anos, teria que ser reposto o anterior sistema, em que passavam de ano apenas aqueles que tivessem aproveitamento para tal, e não como agora, que ficamos com a ideia de que passam todos.
a)- Relativamente à obrigatoriedade do ensino, aquele que até aos quinze anos não tivesse completado o 9º. Ano, passaria de imediato para os cursos de formação profissional, passando a ter garantidas as despesas de transporte e de alimentação.
b)- Essa fase de formação seria de três anos e só poderia ir até aos 18 anos de idade.
c)- Chegados aos 18 anos, todo o jovem que não estivesse a continuar os seus estudos e não tivesse ainda concluído a formação profissional, na mesma área ou noutra para a qual viesse a revelar maior aptidão, ingressaria no que poderia designar-se de POOPD (Programa Ocupacional Obrigatório Para os Disponíveis).
d)- O POOPD duraria até aos 21 anos de idade e estaria sob a tutela da Inspecção Geral do Trabalho. Os jovens iniciariam assim uma habituação ao trabalho, que no sector público ou privado, aufeririam do ordenado mínimo nacional, salvo nos casos em que tivessem chumbado algum ano a mais do que o permitido. Nesses casos aufeririam apenas de transporte e de alimentação até ao final do programa.
e)- Independentemente da nota que viesse a ser necessária para ingressar no curso pretendido, só entraria na universidade quem não tivesse chumbado nenhum ano desde o 9º. Caso tal acontecesse, passaria de imediato para o POOPD.
Nos comportamentos marginais, para a redução dos quais já muito contribuiriam as medidas previstas no ponto anterior, deveriam ser aplicadas as seguintes medidas dissuasoras:

2- Todo aquele que praticasse actos social ou moralmente condenáveis, como o desrespeito pelos pais, professores e autoridades, pelo meio ambiente e propriedade alheia, ficariam impedidos de tirar a carta de condução, ou mesmo licença, até aos 30 anos (idade em que começarão a ter juízo), para além da reparação dos danos causados, e impedidos de frequentarem estabelecimentos de diversão, como discotecas e afins.
a)- Nos casos mais graves, esse impedimento seria definitivo, sem prejuízo da aplicação de outras medidas punitivas.

3- Os que praticassem furto, ficariam impedidos de, no futuro, recorrerem ao crédito bancário; e de virem a ter qualquer bem em seu nome, se o furto se revestisse de circunstancias gravosas, entendendo-se como tal, aquele cujas vítimas fossem os mais frágeis, como crianças e idosos.
a)- Se o furto ou apropriação ilícita fosse praticado por pessoa com idade inferior aos 12 anos, o impedimento aplicar-se-ia só se fossem cometidos mais do que dois ilícitos.
b)- Dos 12 aos 18 anos, seria tolerado apenas um acto ilícito, deixando de haver qualquer tolerância a partir dessa idade. Tanto num como noutro caso porém, essas tolerâncias não ficariam sem uma medida correctiva.

Quanto ao flagelo da droga, proceder-se-ia da seguinte forma:

4- Todo aquele que fosse suspeito de consumo, seria detido e submetido a exames médicos.
a)- Confirmado o consumo e o tipo de substância, passariam automaticamente a serem sujeitos à “terapia”.
b)- Esta, contrariamente às que têm sido desenvolvidas, como o caso das que incluem drogas de substituição como a Metadona, passariam a ter métodos terapêuticos diferentes: em vez de Me-ta-do-na, empregar-se-ia a Me-ta-pá, Me-ta-pi-ca-re-ta, Me-ta-en-xa-da e Me-tas-cos-tas (para alombar).
c)- Esta “terapia”, para os que se drogam uma ou mais vezes por semana, teria como duração mínima dois anos, com a “medicação” a ser “tomada” seis dias por semana.
d)- Os “centros de reabilitação” seriam as obras públicas, como as estradas, as serras a reflorestar, etc.
e)- Poderiam ser tratados em outros “centros” particulares, a troco do ordenado mínimo nacional, que seria pago directamente aos lesados, e quando estes tivessem sido ressarcidos pelos danos sofridos, seria a Segurança Social a receber os mesmos valores.

5- Os traficantes, por pertencerem a “classe superior”, seriam designados de TRAFOR (Trabalhadores Forçados), com um tempo mínimo de “tratamento” de vinte anos, nunca deixando o programa antes dos 65.
a)- Até ao último dia do “tratamento”, os TRAFOR andariam sempre acorrentados.

6- Os incendiários teriam que cumprir uma pena mínima de 20 anos.
a)- Sua ocupação seria nos trabalhos de reflorestação, durante o tempo que fosse necessário para reflorestar toda a área que queimaram.
b)- Aos mandantes da acção, ou ao incendiário se actuou isoladamente, seriam queimadas as duas mãos durante um minuto, numa viva fogueira em praça pública.
c)- Esta pena, porém, só poderia ser aplicada se a pessoa tivesse património que desse para pagar todos os prejuízos.
d)- Na falta do património necessário, aplicar-se-ia a alínea a), e no final, queimar-se-lhe-ia apenas uma das mãos.

7- Os pedófilos e violadores, teriam prisão perpétua, cumprindo a pena a trabalharem seis dias por semana, sob as mais rigorosas medidas de seguraça.
a)- O cumprimento da pena seria em todo e qualquer lugar do mundo onde houvesse crianças com fome ou sem um lar condigno, que seriam os destinatários dos resultados desse trabalho.

8- Os que praticassem a corrupção, ainda que na forma passiva, perderiam tudo quanto tivessem, ficando com o equivalente ao ordenado mínimo nacional.
a)- Perderiam todo o património imobiliário, ficando apenas com o valor de uma casa que um jovem casal com rendimentos de € 1.500,00 conseguiria adquirir.
b)- Os que tivessem cargos públicos ou em instituições de algum relevo, mesmo que apenas local, nunca mais poderiam exerce-los.

Esta lei visaria acima de tudo, que os condenados trabalhassem não só para ressarcirem as vítimas dos danos sofridos, mas também para suportarem todos os custos do sistema prisional. A ser implementada, traria um bem inquantificável ao contribuinte, começando desde logo por deixar de ser necessário o grande reforço das forças de segurança, para não falar do bem incomensurável que seria o andarmos todos à vontade.

Pena é que, os infectados pelo mal acima descrito, sejam em tão grande número que abafam completamente a acção dos pouquíssimos que ainda são imunes a tão terrífica doença.

Se alguém considerar as medidas expostas como próprias de uma ditadura, então venha este género de ditadura livrar-nos da podridão da actual democracia.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

O menino e o cachorro

(Continuação do artigo “Carta de um catequista a um seu catequizando”)

Um menino, de seis ou sete anos, um dia disse a seus pais que gostava da casa para onde tinham mudado, mas que gostaria muito de ver satisfeito um seu desejo há muito manifestado, que os pais sempre adiaram derivado a morarem num apartamento. Uma vez que tinham passado a morar numa quinta, no dia seguinte, ao chegar da escola, seu pai esperava-o com uma grande surpresa: um belíssimo e ternurento cachorrinho.

Cedo se tornaram companheiros inseparáveis, de tal forma, que, o outrora cachorrinho, depois de se ter tornado um grande e belo cão, tinha memorizado todos os tempos que o seu amigo tinha que dedicar aos trabalhos, e quando ele se demorava um pouco mais, subindo com jeito a um canteiro em frente de uma janela, porque sabia que os donos lhe ralhavam, levantando-se, apoiava as grandes patas no parapeito da janela e, para não fazer grande alarido − não fossem vê-lo naquelas tropelias em cima do canteiro −, batia com uma pata no vidro da janela, chamando o amigo para irem para a brincadeira.

Quando o menino regressava da escola, mesmo estando ainda longe de casa, sua mãe era avisada da sua aproximação através das manifestações de alegria do seu maior amigo, o cão, que nessa altura procurava a dona para dessa forma a avisar e mostrar-lhe ao mesmo tempo o seu contentamento pela chegada daquele que era sempre recebido segundo mandam as regras à cão: as patas em cima, levando a que muitas das vezes os dois se rebolassem pelo chão, umas rosnadelas enquanto o ia abocanhando por onde pudesse, mas sem o magoar, terminando sempre a recepção da mesma maneira: encher o menino de beijos, que é o mesmo que dizer, deixar-lhe a cara toda lambuzada.

O tempo foi passando, e, já mais crescido, sem que houvesse qualquer razão que o justificasse, o rapaz telefonou para casa, para dizer que não o esperassem, porque ia dormir em casa de um amigo. Só não disse que essa seria apenas a primeira de muitas noites que faziam parte do plano de deixar a casa paterna, seduzido pelas ideias liberais que acolheu de quem sobre ele exercia poder de influência.

Em vão os pais se esforçaram por encontrá-lo.

Uns meses depois, decidiu passar por casa para levar umas coisas de que necessitava.

Esta experiência transformara o seu coração mais do que o que a inteligência lhe permitia perceber. Era sua convicção que, junto dos outros, da maioria, dos que “curtem cenas”, que não são “betinhos”, agora estava mais capaz para a vida. O que ele não via, era que a mudança nele operada tinha raízes mais fundas. Não se tratava simplesmente de comportamentos ou ideias assimiladas, mas do que fora sacrificado, que era a candura e o brilho do seu coração. Evoluindo desta forma, pensando que isso era crescimento, reduziu muitíssimo a capacidade de visão para dentro da sua alma. Estava por um fio a perda total dessa visão, por que é através do coração, que lhe serve de espelho, que ela se vê, e esse tal “crescimento” tornara baço o coração, onde a alma é reflectida. O brilho do coração tem outra função que funciona em sentido inverso: reflecte para a alma a Luz que vem do Alto, e é dessa forma que a maioria das almas vivem hoje aprisionadas numa angustiante escuridão, definhando a cada dia que passa, por estarem privadas da Luz.

Ao chegar ao portão da quinta, esperava ver o Niko (esse era o nome que ele mesmo tinha dado ao seu fiel amigo) a correr para ele, mas do Niko, nem sinais. Ouviu ao longe uma voz chamar o seu nome. Era seu pai que, ao vê-lo desde o alpendre onde se encontrava, ao lado da casa, correu para o abraçar, enquanto lhe ia falando da única forma que no momento conseguia: estreitando-o em seus braços bem encostado ao peito, o ritmo cardíaco mais acelerado, a respiração quase ofegante e uma torrente de lágrimas, eram a única coisa que conseguia dizer.

Seu pai, acometido de grande emoção, pô-lo ao corrente da situação de sua mãe e do Niko. Ambos têm passado mal na sua ausência. O desgosto levara a que o Niko sofresse mais os efeitos da perda do amigo. Durante muito tempo, nada nem ninguém conseguia que ele deixasse de permanecer junto do portão, esperando que o amigo chegasse a qualquer momento. Emagrecera muito, e nem todos os cuidados veterinários pareciam fazer regredir o desfecho temido. Muitas vezes viam-no os donos, quando dormia, a mexer ligeiramente as pálpebras, percebendo-se um ligeiro movimento da cabeça e como que uma tentativa de surdos latidos. Despertando, olhava em redor e, vendo que afinal a realidade era outra, entregava-se a tristes gemidos, seguindo-se-lhe uma lágrima que chamava a atenção para aqueles olhos que não pareciam mais os do Niko que, segundo o que comentavam os donos entre si, sonhava com o que tanto desejava, o amigo, e ao despertar, vendo que ele não estava, chorava, avivando com isso a dor que os donos sentiam.

Enquanto ouvia tudo isto de seu pai, caminhando vagarosamente à sombra das muitas e variadas árvores de fruto que ladeavam o caminho entre o portão da entrada e o jardim, chegaram a casa.

E porque esta história, quando a comecei com a ideia de me servir de um pensamento que me ocorreu descrevendo-o num pequeno parágrafo, já vai longa por eu mesmo ter gostado dos pensamentos que se sucediam para a sua criação, impõe-se-me que a deixe por aqui, por já ter conteúdo bastante para te permitir perceber o que pretendo dizer-te com ela. Repara que o final não está contado. Ele depende apenas e só de um dos personagens. Queres tu dar-lhe continuidade, dando-me a possibilidade de ver como ela termina?

(...) «Que o Senhor te conceda a sabedoria do coração» (Sir 45, 26a).

«O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça!» (Nm 6, 25).

Que os Anjos te protejam!

Eu, como o Niko, ficarei esperando à porta, lembrando-me do meu A…, enquanto vou auxiliando o teu Anjo da Guarda com as minhas orações.

Com o coração a verter uma lágrima, aquele que não quer deixar de ser teu catequista,»

J. A. S.

Carta de um catequista a um seu catequizando

«Querido A…:

Que a Luz que recebeste no Baptismo se avive em teu coração depois de leres estas palavras, (…).

Poderá surpreender-te o facto de o teu catequista se dirigir a ti desta forma, quando se trata de alguém que acabaste de conhecer, com quem estiveste apenas durante seis horas − contabilizadas as tuas presenças nos encontros de catequese até ao momento. Mas passo já a explicar-te:

Eu não sou mais do que o simples portador de uma mensagem que não é minha, que te é dirigida, e se não fosse por meu intermédio, poderia até dizer-se expressa e directamente da vontade de Deus.

Eu sei que esta é uma linguagem que pode soar de forma estranha ao teu entendimento, mas como poderá Jesus, como poderão Deus Pai e o Espírito Santo vir a estabelecer contigo uma relação de amizade, capaz de te levar ao desejo das coisas do Alto e ao entendimento de tudo o que fica vedado a todos os que não criam intimidade com Deus, se neste momento estás disposto a deixar a catequese?

Meu querido A… Asseguro-te, baseando-me também em todas as coisas que já vivi, que, todo o sucesso, toda a realização pessoal, tal como hoje nos são apresentados, não passam de enormíssimas falsidades que, em vez de felicidade, quase sempre conduzem a pessoa a um sentimento de vazio, que por sua vez gera frustração. E quando há frustração, há revolta e por aí adiante. (…)

Repara bem, A…, que esse tal vazio, é hoje um fenómeno que atinge as pessoas de todas as camadas sociais, tanto ao pobre como ao rico. Não vemos nós, muitos casos de rapazes e de raparigas, de homens e de mulheres, que, aspirando ao casamento com a pessoa dos seus sonhos, a um bom emprego, a um estatuto social, a altos cargos, a riqueza, a ter filhos, depois de terem conseguido tudo isso ou até mais, passarem a frequentar as salas dos tribunais, os consultórios dos psicólogos e dos psiquiatras e a terem muitos outros problemas?

Por que será A…? Por que será que as pessoas são hoje indiferentes a tudo, inclinando-se assim para o egoísmo, e na questão dos sentimentos parecem distantes, frias, sendo esse o meio para que se tornem ásperas, agressivas nos modos, como se vê em tantos com quem convivemos diariamente e até em muitos que todos os dias vemos nas televisões? Apenas por uma razão fundamental: por estarem privadas dos benefícios que a actividade dos Dons do Espírito Santo em si lhes proporcionaria.

(...) Como já compreenderás neste momento, não é Deus quem priva alguém dos Seus dons, das Suas riquezas. É a pessoa que, ao escolher determinados caminhos, tomando determinadas opções, é ela mesma que se auto-exclui da Herança desse tesouro que é de uma grandeza, de um valor e de uma beleza que o entendimento humano não consegue abarcar, que é o regressarmos ao lugar onde a nossa alma já esteve quando foi criada pelo Pai, à alegria de passarmos a viver em definitivo junto de Deus.

Esse é o estado de felicidade plena, que só no Céu pode alcançar-se. No entanto, para se atingir Deus dessa forma, torna-se necessário e imprescindível que com Ele vivamos nesta vida, recolhidos sob o Seu tecto, que é a Santa Igreja, a única casa onde se encontra o alimento necessário para um crescimento saudável, forte e feliz.

Está bem, mas eu ainda tenho 13 anos, e acho que com isto tudo o catequista me está a falar de coisas que até nem fazem propriamente parte das preocupações da minha idade, pensarás tu. Se assim pensares, que acredito que seja o mais natural, caso contrário não me tinhas comunicado que ias deixar a catequese, estás a ser invadido pelos pensamentos mais insensatos, sempre responsáveis pelas erradas decisões.

(…) Que mais te posso dizer, meu A…?

Embora o texto já vá longo, permite-me partilhar um momento muito particular: ao acabar de escrever a frase anterior, relendo o que escrevi, os olhos ficaram-me molhados pelas lágrimas, pois, sendo o pensamento muito veloz, detive-me neste ponto: “meu A…”. E pensei: estou a dizer “meu A…” e ele já a ir-se embora… Não, vou corrigir esta parte, porque estive muito pouco tempo com ele para poder tratá-lo assim, e também não faz sentido eu dizer “meu” a alguém que já não é… E eis que de repente apercebo-me de uma coisa estranha: estou a chorar… É então que me sobreveio outro pensamento: quem escreveu fui eu, mas o autor foi Jesus, e se assim é, Ele tem toda a legitimidade para dizer: meu A… E quanto ao resto, dado que em minhas orações o que eu mais Lhe peço é que me faça Seu instrumento, utilizou-me para assim te falar, ao ponto de não excluir a minha sensibilidade, que procuro que seja o mais ajustada possível à d’Ele, (...).

E agora sim, para terminar, uma história:»

(Continua)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Água benta não!

Aconteceu há uns anos atrás. Poucos minutos faltavam para começar a Missa e, ao fundo da igreja, que era na verdade um espaço provisório até que fosse construída a igreja que hoje existe, junto à porta de entrada, chamou-me a atenção uma jovem senhora, não por ser desconhecida, pois nunca por ali a vira, mas por alguma outra razão.

Já não me recordo do que lhe disse quando me dirigi a ela, mas terá sido algo relacionado com o acolhimento que lhe quis prestar.

Momentos depois, porque eu tinha ido a outras salas, creio que, à procura de alguém que estava escalado para as leituras daquele Domingo, vejo-a no espaço que fazia de antecâmara a essas outras salas, ficando eu com a ideia de que talvez me tenha seguido, por eu ser a pessoa que lhe dera atenção e quiçá por ser isso mesmo que ela buscava.

Mal eu parei junto dela, sem que lhe tocasse, porque anteriormente tinha-o feito, cai no chão, como se tivesse desmaiado. Dois outros membros da comunidade foram solícitos a acudir, para ajudá-la a recompor-se.

Rápido nos apercebemos, porém, de que não se tratava de uma questão qualquer de saúde. A pobre começa a agitar-se e a emitir sons como um animal enraivecido, mas num timbre de voz que não era o seu, era mais grave.

Ali estávamos três, de entre os vários membros da comunidade empenhados nos vários serviços da paróquia, desde os litúrgicos à pastoral, mas que éramos acima de tudo três homens de oração. Talvez por isso tenha havido da parte de cada um uma resposta natural ao quadro que se nos apresentou, sem que aquilo nos espantasse, nem mesmo causasse uma grande admiração.

Começámos a rezar. Inicialmente, eu fiz oração mental, e sem conhecimentos ou preparação para tal, com alguma ingenuidade à mistura, sustentando-me apenas na fé da Igreja, ousei acreditar que podia ordenar ao mal que cessasse, em vez de fazer a oração de petição ou súplica ao Pai. Enquanto isso, e porque naquele pequeno grupo de três havia dois ligados ao Renovamento Carismático, um destes disse ao outro para rezarem em línguas, o que fizeram enquanto o terceiro evocava o poder de Cristo sobre o mal e a Sua vitória pela Cruz.

Creio que foi nessa altura que a criatura começou a rir-se e a fazer troça da cruz, não obstante o facto de já estar a ser empunhado diante dela um crucifixo. Foi nesse momento que, aquilo que até ali para mim era uma suspeita passou a certeza. Foi-me dado ver claramente quem tinha diante de mim, quando a criatura, com um orgulhoso tom de vitória, afirma alto e em bom som:

− O mundo é meu!... Quem Te crucificou fui eu! Eu, crucifiquei-Te! Eu domino o mundo! (1)

Iluminado pelo Espírito Santo ou por que visse que era tarefa demasiada para nós, um dos três pediu que trouxessem água benta, enquanto assistíamos àquela gabarolice. E quando estava para lhe ser administrada, sem que tivesse abrandado o empenhamento de cada um, o “discurso” foi interrompido pelas seguintes palavras:

− Isso não, água benta não!... Isso arde!..

E por desconforto, rejeição ou mesmo dor, quando recebeu a água benta, com um «aaah!…», contorcendo-se, deu por terminada a sua “apresentação”.

O que se seguiu foi para mim um momento comovedor. A pobre mulher, com voz suave e suplicante, começou a rezar o Credo, vindo a levantar-se como se nada tivesse acontecido, a não ser um aparente cansaço.

Procurei mais tarde saber desta filha de Deus, por me inquietar com o seu sofrimento. Soube que morava para os lados da pessoa que me disse conhecê-la, vindo depois a perguntar por ela aos vizinhos do prédio onde morava, que me disseram já não estar ali, que tinha sido internada no Hospital Júlio de Matos. Obviamente que não lhes disse nada sobre os motivos por que a procurava, dada tamanha incompreensão que hoje existe sobre a área da demonologia, para a qual muito contribui o modernismo (2) que se instalou na Igreja de Cristo e que chega mesmo a negar a existência do diabo, incorrendo em heresia quem tal coisa defende, ao negar um dos quarenta e três Dogmas (3) da Igreja.

Na minha paróquia, na altura, havia água benta para uso dos fiéis. A partir do momento que foi inaugurada a igreja, como parece acontecer em todas as igrejas mais recentes e até nas antigas mas com padres modernos (pese embora alguns já tenham mais do que idade para terem juízo), a água benta já não se encontra…

Depois do que acabo de expor, pergunto aos senhores bispos e aos senhores padres:

Quem é que se revela mais interessado em que não haja água benta nas igrejas? Porque não reparais então o mal, diminuindo assim o sofrimento de Nosso Senhor, que vos vê impedir os seus filhos de acederem a este sacramental e seus benefícios?

Vós, pregadores da Palavra, atendei ao pedido cada vez mais actual de S. Pio X, que, na sua ENCÍCLICA PASCENDI DOMINICI GREGIS sobre as Doutrinas Modernistas, aí vigorosamente condenadas, a todos diz: «Queira Deus secundar os Nossos desígnios, e auxiliarem-nos todos quantos têm verdadeiro amor à Igreja de Jesus Cristo».

Queira pois, algum de vós, curadores de almas, deixar-se mover pela compaixão em favor desta filha de Deus. Fico à espera de algum contacto, para o endereço indicado ao início da página.

_________________ 
(1) A ordem das frases pode não ter sido exactamente a mesma.
(2) Para algum leitor menos esclarecido, Dogma é uma verdade declarada como tal pelo Sagrado Magistério da Igreja, depois de muito estudo, debate e oração sobre matéria até então controversa. Pode dizer-se, por isso, que é uma verdade revelada por Deus, como tal, o Dogma é imutável e definitivo (não pode ser revogado).
(3) Corrente teológica/filosófica condenada pela Igreja, que actua bem dentro do seu seio.

Onde estão os católicos?

Num país em que se diz que a democracia está solidificada há já alguns anos, aparecem uma ou outra vez leis completamente contrárias ao que seria uma verdadeira e respeitosa convivência entre os mais diversos ideais, sejam eles de ordem sociológica, política, ou religiosa.

Eu creio que democracia é o ter e usar de liberdade para agir, quando para isso se foi mandatado, não deixando nunca de respeitar e considerar ideias diferentes, decidindo sempre em favor da maioria dos interessados. Quando tal não acontece, os que parece até babarem democracia em seus discursos, são os maiores impostores, porque levaram aqueles que neles votaram a acreditarem que eram de facto democratas. O ser democrata implica a aceitação e a sujeição às inalienáveis regras ético-deontológicas que a democracia comporta, coisa que parece constatar-se no proceder dos nossos políticos apenas quando é para ficar bem na “fotografia”.

Assemelhando-se a realidade da vida política a um género desses concursos que têm passado nas televisões, será que o “público”, neste caso, entenda-se, os católicos, conhecendo cada vez melhor os vários “actores” concorrentes a “ficar no palácio”, vai continuar a votar na “família” que só representa muito bem quando se trata de tragicomédias, cantando também muito bem apenas e só no entender dos amigos? Será que da parte do “público” ainda ninguém se apercebeu de sinais claros de falta de seriedade para alcançarem os seus objectivos?

Veja-se uma situação no mínimo suspeita:

Quando decorria a campanha para o último referendo do aborto, contactei a Comissão Nacional de Eleições para me inteirar sobre a legalidade da constituição de uma mesa de voto numa freguesia, quiçá a mais populosa da área metropolitana de Lisboa. Perguntava eu à técnica que me atendeu, creio que, jurista, como era possível que uma mesa de voto fosse constituída só por elementos dos partidos que promoveram o Sim ao aborto. Depois de me ter sido explicado que as listas com os nomes dos membros das mesas de voto têm um prazo para poderem ser contestadas, foi-me ainda referido, como que para atestar da seriedade que estaria garantida na contagem dos votos, que há um elemento em cada mesa com a função de fiscalizar toda a contagem.

Depois de ter ouvido isto, tive que pedir desculpa à pessoa que me atendeu, por ter dado uma real e grande gargalhada e, justificando a dita, tive que lhe dizer que tal função ia ser desempenhada por uma pessoa que era apenas e só do Bloco de Esquerda…

Pois é, caríssimos leitores, com esta gente, primeiro foi a retirada dos crucifixos das salas de aulas, como se o povo português tivesse ficado de um momento para o outro todo convertido ao Islão; depois foi a história do primeiro referendo ao aborto lhes ter ficado atravessada, não descansando enquanto não demonstraram como “são de facto democratas” ao não aceitarem a decisão do povo, tudo tendo feito para levarem a sua avante; e a última, foi a lei que criaram para que seja retirado o nome dos Santos de todas as escolas…

Cá para mim, o Governo tem alguma secreta comissão de estudos que o informou que o insucesso escolar se deve a esse facto de muitas escolas deste país terem o nome de algum Santo. Se assim for, e se se descobriu que afinal o Santo cujo nome tenha sido dado a uma escola anda a importunar os nossos meninos que nela aprendem, sou de acordo que se corra com ele, ou então, se for caso disso, chamem a polícia!...

Não pensem que é o interesse pela política que me leva a escrever este texto, pois, política, é coisa que cada vez mais enjoo. O que me move é a defesa de valores que há séculos fazem parte da cultura de um povo religioso que somos; é o constatar que os católicos andam a ficar demasiado frouxos, como se, ser católico seja o mesmo que ser masoquista…

Não é, portanto, como cidadão, mas como católico que vos pergunto: como é possível que gente que tem como escola a maçonaria, como afirmou numa grande entrevista o Grão Mestre da Loja maçónica do GOL em 2002, e depois de já terem dado provas do seu ódio contra a Igreja, tenham sido eleitos com o voto dos católicos? Quem não conheça ainda as razões que os motiva, faça uma leitura breve da História desde a 1.ª República e verá que já o então discípulo de Satanás, o Ministro das Finanças e Ministro de Cultos, Afonso Costa, foi seu feroz perseguidor, chegando a afirmar: «Dentro de duas gerações, a Religião Católica terá deixado de existir em Portugal».

Que Deus se compadeça da nossa Pátria e ilumine as consciências cívicas de todos os que ainda se dizem cristãos, pois, quem se esforça por ser Cristão, com as dificuldades que muitas vezes isso implica, não pode carregar aos ombros um fardo que é tão pesado que o impede de caminhar.

Quando se descobre o erro, só não muda de ideias quem, cego pelo orgulho, não experimenta a simplicidade da razão.

J. A. S.

A astúcia da Clamídea

Aquilo que as notícias nos têm mostrado sobre os índices da criminalidade, são cada vez mais preocupantes. O crime com o uso de violência tem vindo a aumentar. Muitas escolas e áreas envolventes, devem estar em destaque nos mapas das forças policiais, por fazerem parte dos pontos críticos da sua área de actuação.

A criminalidade e a delinquência associadas a esses meios, têm sido responsáveis por muita inquietação nas famílias que tenham seus filhos ou netos a estudar em escolas algo problemáticas. O medo que se instala em primeiro lugar nos miúdos que já tenham sido vítimas de assaltos ou receio de virem a ser os próximos, e até mesmo nos próprios pais, é um facto que tem motivado debates e formas de acção com vista a controlar esse mal que afecta as populações escolares.

Face a esta problemática geradora de sentimentos de medo e insegurança, coloco ao leitor e às entidades responsáveis pela “educação (?...)” no meio escolar, a seguinte questão:

Se alguém tivesse a ideia de lançar uma campanha de sensibilização nas escolas para que as nossas crianças, adolescentes e jovens, conhecessem os métodos de actuação dos grupos que aterrorizam tanta gente, seria boa ideia?

Crendo que a esta pergunta poderia ter a anuência da maioria, continuo:

E uma vez reconhecida e validada a importância dessa campanha por parte do Ministério, alegando que o objectivo era dar aos miúdos todo o esclarecimento necessário, que acham se se avançasse para a apresentação de tudo quanto faz parte dos meios utilizados pelos grupos de vândalos e assaltantes? E querendo ser mais abrangente, que tal dar-lhes formação sobre os produtos utilizados nos bares e discotecas, usados muitas vezes para “adormecer” as vítimas de roubos e de violações? E à medida que os alunos fossem tendo capacidade para tal, porque não dar-lhes também formação sobre os vários tipos de objectos e armas que andam por aí a operar, pondo-os mesmo em contacto com elas, permitindo-lhes o seu manuseamento?

Calma!... Escusam de me chamar o que já estão a pensar, porque não pretendo propor esta “disciplina”...

Pois bem: passando deste “projecto” a um outro que foi apresentado aos pais que em Abril do ano passado estiveram na reunião periódica de encarregados de educação e que está a ser levado a cabo pela Universidade Nova de Lisboa, por ser um pai que se nega a estar de acordo com algumas “preocupações” que a União Europeia tem em relação aos educandos, “preocupações” também sentidas pelos nossos governos, contestei o plano de acção ou projecto apresentado.

Tendo-se apresentado na sala uma professora para pedir aos pais que assinassem um documento identificando-se a si e ao seu educando, declarando se autorizavam ou não que o aluno participasse numa acção de formação (?) sobre as doenças sexualmente transmissíveis, disse que os pais tinham que assinar, independentemente de autorizarem ou não, identificando-se a si e ao aluno. No final eu disse que, se não fosse uma falta de respeito para com ela, nem aquela folha preenchia. Em toda a sala, fui a única pessoa que se manifestou abertamente contra “as preocupações” que a professora disse haver no seio da U. E. e que estão na origem deste projecto.

Com a lição muito bem estudada, usou do engodo de enumerar algumas das doenças sexualmente transmissíveis, chamando, obviamente, a atenção para os perigos que elas podem comportar. E como que num gesto de xeque-mate à concordância dos pais, astutamente, à lista das vulgarmente conhecidas, acrescentou uma outra cujo nome escreveu no quadro: a Clamídea. E assim terá obtido a adesão de muitos pais, tanto naquela como em outras salas onde terá usado exactamente a mesma estratégia...

Explicando eu as razões pelas quais não autorizava que o meu filho participasse, disse em primeiro lugar que não estava nada preocupado com nenhuma doença sexualmente transmissível, nem mesmo com a Clamídea, cujo nome ali ouvi pela primeira vez, dado que a melhor preparação ou ensinamento que tenho dado aos meus filhos, é o próprio testemunho de vida, aproveitando para dizer:

− Em 82, estando na tropa, namorei com uma rapariga de quem gostava. Gostava-mos um do outro, mas a determinada altura concordámos em parar. Hoje posso olhar o marido dela olhos nos olhos, uma vez que, o gostar dela era para mim sinónimo de respeito, tendo terminado o namoro sem que lhe desse um beijo nos lábios.

Recorrendo a uma outra forma de cartada psicológica, a defensora do programa, querendo tocar o ponto fraco das pessoas, disse que teve conhecimento de que um jovem médico, hoje com SIDA, contraíra a doença no seu primeiro ano de universidade...

E aquilo não poderia ficar sem mais uma intervenção minha, que poderá ter chocado algumas sensibilidades − e estou certo que chocará a de alguns leitores −, ao dizer:

− Olhe... não tenho pena nenhuma!... Teria pena desse jovem, se me dissesse que, por via de um acidente, por causa de uma cirurgia ou assim, tivesse sido infectado, agora por quem pratica sexo antes ou fora do casamento... não tenho pena nenhuma! A prática sexual não tem contra-indicações no matrimónio, dando até beleza e tempero à relação, fora disso, quem pisa o risco que assuma as consequências!... (Quem não me conheça bem dirá que isto não são palavras de uma pessoa que sofre com os problemas dos outros, mas uma coisa é a atitude cristã para com quem errou, outra coisa é tolerar o erro, que quase sempre tem uma abrangência que conduz a uma chaga para os mais próximos e até para a própria sociedade).

Em jeito de resposta à minha intervenção, apenas uma mãe tomou a palavra para dizer que estava de acordo comigo, porém, chamou-me a atenção para o facto da existência dos problemas que não podemos ignorar...

E agora, digo eu: lá isso é verdade! Mas acham que o problema se combate ensinando tudo às crianças? Permitindo programas escolares que não servem para outra coisa senão ao incitamento da prática sexual?

Os pais e demais educadores em geral, ao permitirem estas políticas anti-natura, estão a fazer exactamente o mesmo que faria aquele pai, a cujo filho, só porque o seu grupo de amigos costuma fugir com uns carros, era ensinado um melhor conhecimento dos veículos automóveis, assim como todas as artimanhas para evitar ser apanhado pela polícia, uma vez que ainda é menor... Não digam que não é a mesma coisa, porque é! O princípio é exactamente o mesmo. Se a este hipotético jovem se lhe dava o conhecimento para não ser apanhado pela polícia, aos verdadeiros ensina-se-lhes a precaverem-se para não serem apanhados por uma doença...

Onde está a vossa coerência, ó pais e educadores em geral? Como é que não concordam com a “ideia” atrás apresentada, argumentando que isso seria um incitamento disfarçado ao uso de armas, e não se manifestam contra aquilo que astutamente é apresentado como programas de “educação” sexual?

Quanto às leis civis, o seu desconhecimento não iliba ninguém do seu cumprimento nem livra da pena a aplicar. Quanto à Lei de Deus, que ninguém pense que, pelo facto de um Estado tornar lícito o pecado, vai ser dispensado da Justiça Divina. Nesse Tribunal, de nada vale dizer que, “toda a gente fazia... era legal”, etc., etc.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O Nome de Deus

Pastoreava Moisés os rebanhos de seu sogro, Jetro, sacerdote em Madiã, no monte Horeb, também conhecido por Monte Sinai (cf. 2Cr 5, 10), e eis que se depara com o fenómeno de um fogo misterioso.

Impelido tanto pelo espanto como pela curiosidade, aproxima-se daquele fogo, mas é detido pela voz de Deus que saía do meio daquela sarça ardente, ordenando-lhe que parasse, que não se aproximasse, pois encontrava-se num espaço sagrado porque Deus ali se fizera presente, dizendo-lhe ainda que, por isso, por respeito, descalçasse as sandálias.

Estabeleceu-se então um colóquio, no decorrer do qual Moisés foi instruído para uma missão, a de voltar ao Egipto para libertar o Povo de Deus. Depois de muito se debater, entendeu Moisés que, para a levar cabo, precisaria de apresentar aos anciãos como que uma prova de que fora o próprio Deus, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob quem lhes falava (cf. Ex 3,6), e colocou a Deus a seguinte questão: «Eis que eu vou ter com os filhos de Israel e lhes digo: ‘O Deus dos vossos pais enviou-me a vós’. Eles dir-me-ão: ‘Qual é o nome dele?’ Que lhes direi eu?» (Ex 3,13), e obteve como resposta: «Eu Sou» (YHWH). «EU SOU AQUELE QUE SOU» (cf. Ex 3,14).

Se misterioso era o Nome de Deus, misterioso se manteve, pois, a resposta que Moisés obtivera levaria a que Seu Nome fosse impronunciável. Vários nomes foram dados ao Deus de Israel, sem que na verdade se tratasse de nomes, mas de atributos ou qualidades de Deus.

Eis apenas alguns desses nomes ou títulos: Shaddai, Elyon, Adonai, Yahweh, Elohi, Emanuel.

Se alguém quiser dissertar sobre o Nome de Deus, tem que se cingir ao designado Tetragrama Sagrado, YHWH, que também se pode encontrar de outras formas como JHVH, JHWH, ou YHVH. E não existe nenhum outro nome a não ser este que jamais alguém conseguiu pronunciar.

Na sua origem, o Tetragrama (quatro letras), escrito em hebraico e da direita para a esquerda, ao contrário da nossa escrita, era composto pelas seguintes consoantes: ה ו ה י Estas consoantes pronunciam-se: י = Iod, ה = Hêi, ו = Vav, ה = Hêi.

Um nome composto por quatro consoantes, era, pois, e continua a ser, impronunciável. Mais tarde, no decorrer da própria evolução da língua hebraica, foram-lhe introduzidas vogais, podendo então dizer-se YaHWeH (Javé), ou YeHoWaH (Jeová), mas isto nada veio alterar, uma vez que se trata apenas da forma de pronunciar estas consoantes... Nos textos sagrados, para evitar a referência a «Eu Sou», ou, «Aquele que É», passou a dizer-se simplesmente O Senhor, Deus. Portanto, vemos claramente que nunca se tratou nem pode tratar-se do Nome de Deus, porque em parte alguma da Bíblia vemos que Ele o tenha revelado.

Se ocorre pensar que o povo de Israel, os Hebreus, “deram a conhecer” um Deus inacessivel, questionemo-nos se não seremos nós os cristãos quem já perdeu todo o respeito por Ele, mesmo depois de se tornar tão humana e divinamente acessível com a descida à humanidade de Jesus, que veio trazer-nos um outro entendimento de Deus, um só Deus em três Pessoas, Pai, Filho, e Espírito Santo.

Saiba cada um de nós mergulhar tão confiadamente nas profundezas do Amor que por nós sente o Senhor (palavra sempre utilizada nas Escrituras em substituição do Tetragrama), que sintamos a necessidade de O tratar por Abba (Pai, ou Paizinho − Rm 8,15).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

LÁGRIMAS DE MÃE

Certo dia fui ao Hospital de Amadora Sintra visitar uma doente. Ao entrar no quarto, dirigi uma palavra às que já tinha visto no dia anterior, bem como às que via pela primeira vez. Entre estas, encontrava-se uma jovem que iria naquela tarde ser operada. A curta conversação que entre nós se estabeleceu foi de certa forma a que o momento requeria.

Pouco tempo depois chega o marido e os seus olhos adquiriram outro brilho.

O tempo passou depressa e quando começo a dar uma palavrinha a cada doente porque estava para sair, verifico que aquela jovem estava com a cabeça voltada para o lado, de olhos fechados, levando-me a pensar que teria adormecido pela acção do soro. Ao passar junto dela detive-me um pouco, ao constatar que ela tentava era disfarçar algumas lágrimas.

Segurando-lhe a mão, tentei animá-la. E como resposta a algumas palavras minhas, negou que fosse o medo ou qualquer nervosismo, nem tão pouco o ter ficado sozinha depois de o marido se ter ausentado, a causa daquelas lágrimas. E explicou:

− É o meu mais pequeno, que tem hoje uma consulta, e tem que ser o meu marido a ir com ele. E à noite quando chegar a casa vai perguntar por mim...

Numa claríssima falta de tacto, tentava dizer-lhe que não era razão para estar assim; até que, assistido pelos olhos da alma, pude claramente compreender o que se passava no coração daquela jovem, anuindo ao seu sentimento:

− Compreendo. Então é pelo “simples” facto de ser Mãe.
Esfregando os olhos enquanto tentava recompor-se, respondeu, sorrindo:

− Pois é...

Ainda não me tinha despedido, quando chega um funcionário a dizer-lhe que estava na hora, que ia levá-la para o bloco operatório. Saí, e já no corredor, olho para trás e surpreendeu-me a serenidade dela, como se o funcionário estivesse a oferecer-lhe um chá...

Admirando aquela jovem, vi na sua compostura a confirmação de que não era qualquer medo ou receio da operação a origem daquelas lágrimas, eram de facto e apenas Lágrimas de Mãe.

sábado, 5 de janeiro de 2008

A linguagem dos símbolos e o poder da imagem

Uma linguagem própria dos símbolos foi sendo desenvolvida e aceite até aos nossos dias, desde que o homem sentiu necessidade de comunicar. As mais antigas formas de comunicação documentadas terão a sua origem na arte rupestre. Desde então até à actualidade não parou o homem de desenvolver a arte de melhor comunicar, chegando a criar códigos para que os não destinatários não pudessem entender a mensagem.

Vista como uma crença envolta em superstições e contra a religião do estado, a fé professada em Cristo pelos primeiros cristãos valeu-lhes uma impiedosa perseguição, o que os levaria a ir passando as suas mensagens pelo uso de acrósticos(1), acrónimos(2) e por outro tipo de codificação como os monogramas e os símbolos, neles ocultando a sua identidade de cristãos. Essa perseguição foi particularmente sentida na segunda metade do séc. I, com Nero no poder, e com Diocleciano no início do séc. IV, instigado por Galério, um de seus tetrarcas.

A desfavorável situação político-religiosa que sobre os cristãos recaía, levou-os a formas de comunicação próprias de grupos marginais que vivem na clandestinidade. Desses registos, talvez o mais conhecido seja o acróstico ICTUS(3). Estas letras do alfabeto grego eram dispostas verticalmente, de forma a que cada uma fosse a inicial em cada linha ou parágrafo. Assim, a palavra peixe, que é o que ICTUS quer dizer em grego (no grego antigo), significava as iniciais de Iesus Christos Theou Uios Soter, que quer dizer, Jesus Cristo de Deus Filho Salvador (há autores que dizem de maneira diferente: Jesus Cristo Filho de Deus e Salvador).

Passando o acróstico a ser usado como um acrónimo, para dizerem Iesus Christos Theou Uios Soter, diziam simplesmente ICTUS, da mesma forma que nós dizemos apenas INEM quando queremos referir-nos ao Instituto Nacional de Emergência Médica, e dado que a palavra quer dizer peixe, então para simplificarem a mensagem, passaram simplesmente a desenhar um peixe.

Outra forma utilizada eram os monogramas obtidos pelas letras (também do alfabeto grego) XP sobrepostas, como ainda hoje vemos nas nossas igrejas, que querem dizer as iniciais de CRisto (X = qui; P = rho, ou rô) e aquele outro que também já muito temos visto, o JHS = Iesus Hominun Salvator, que traduzido quer dizer, Jesus Salvador dos Homens.

Apesar de as perseguições ao cristianismo terem acabado após Diocleciano com o imperador Constantino, por muito ter pesado até então nos cristãos o horror sentido pela infâmia da Cruz, só no séc. V - VI começaram a ver-se os primeiros crucifixos.

Não obstante o próprio tempo decorrido e os progressos da Igreja nos mistérios de Deus sob a condução do Espírito Santo, há ainda hoje quem não entenda o fundamental do maior acontecimento da história da humanidade, o Mistério da crucificação do próprio Deus feito homem. Ultrapassado o choque de tal Acontecimento e começando a cicatrizar no coração dos cristãos a ferida causada pela infâmia da Cruz, recorreu a Igreja à imagem, propondo com ela a lembrança dos episódios mais marcantes na cristandade e para que ao mesmo tempo servisse como método pedagógico-catequético com vista a suscitar no cristão a contemplação da vida ou acontecimentos nela representados.

Sob esse entendimento, enriqueceram-se os templos de valiosíssima arte iconográfica, a muitos deixando de “boca aberta” a perfeição, o requinte e a beleza das obras que tão bem retratam acontecimentos da vida de Jesus e dos santos. Templos há, em que o fiel é automaticamente remetido à sua pequenez, ao sentir-se reduzido pela imponência, majestade e beleza de toda a obra, onde tudo parece apelar e concorrer para a Majestade e Glória de Deus.

Eloquentes catequeses conseguiram os artistas através das imagens. Quantas vezes já contemplámos obras tão perfeitas que nos fizeram escapar a expressão do nosso espanto, da nossa admiração? Quantas vezes já nos sentimos arrebatados pela realidade que a obra traduz? Quando assim acontece, é o sinal claro de que o artista conseguiu plenamente passar a mensagem pretendida através da imagem.

O que vi há uns dias em Fátima, após a visita à nova igreja plantada no recinto do Santuário e sobre a qual já escrevi um outro artigo, leva-me a colocar ao leitor a seguinte questão:

Quantos quadros tem nas paredes de sua casa que tenham apenas a moldura? Nenhum, certamente! Quantas fotografias traz na carteira, com o fundo todo em branco, sem que pessoa ou coisa alguma nelas se veja e com os dizeres: este é o meu pai; este é o meu filho; esta é a minha esposa, para que as pessoas a quem as mostra possam saber de quem se trata? Pois, estamos a falar do absurdo…

Pois foi coisa do género que eu vi, num lugar onde não seria de esperar, num seminário. Num espaço que antecede a entrada para a igreja, onde entrei para participar na Santa Missa, deparei-me com algo muito semelhante, o que não causaria tanta surpresa se não se tratasse de um seminário e se não tivesse os tais dizeres…

O “quadro” em questão, como que para que não restassem dúvidas, tinha a tal indicação, faltando porém o mais importante, que era a imagem da pessoa em causa. Os dizeres eram aqueles que Pilatos mandou colocar no instrumento último da Tortura do Próprio Deus.

Na Igreja, o dom dos artistas sempre foi aproveitado para que a imagem tenha sobre nós o poder de nos ajudar a sentir a realidade representada. Porém, nos últimos tempos, se até os próprios seminários abriram as portas a uma “arte” completamente contrária a este princípio, como não havemos de sentir um incómodo vazio nos templos edificados no pós Vaticano II, onde não existe nada que favoreça a necessária atmosfera espiritual que nos envolve e nos eleva a um nível mais alto, ao sagrado?
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(1) É uma forma poética de construir uma palavra ou uma frase, lendo na vertical as primeiras letras (ou outras) de cada parágrafo ou linha do texto. Como exemplo, nos três primeiros parágrafos deste artigo, encontramos o acróstico UVA.
(2) Conjunto de letras, pronunciado como uma palavra normal, formado a partir das letras iniciais. Exemplo: para dizermos Organização do Tratado Atlântico Norte, dizemos simplesmente OTAN.
(3) As letras do grego antigo são caracteres cujo formato não é possível aqui apresentar.

domingo, 11 de março de 2007

QUANTO VALE A VIDA?

“Depois de uma aula sobre o sentido da vida humana, a aluna aproxima-se do professor e pergunta-lhe:
- Professor, quanto vale a vida humana?
O professor ficou pensativo. Naquele momento passaram-lhe pela mente as questões clássicas (Donde venho? O que faço? Para onde vou? A vida humana acaba nesta terra? Existe o transcendente? Quem dá sentido à vida?). Após alguns momentos, retirou o anel que tinha no dedo com uma pérola, entregou-o à aluna e disse-lhe:
- Vai perguntar às pessoas quanto vale este anel. Mas não o vendas. Depois de saberes as respostas, vem ter comigo.
A aluna encontrou uma senhora a vender cerejas e perguntou-lhe:
- Quanto me dá por este anel?
- Dou-te dez quilos de cerejas, respondeu a senhora.
A seguir encontrou um senhor que vendia uvas:
- Quanto me dá por este anel?
- Dou-te 100 quilos de uvas.
Mais adiante, encontrou uma ourivesaria. Entrou e perguntou:
- Quanto me dá por este anel?
- Fico com ele por 10.000 euros.
Entrou noutra ourivesaria. O ourives, ao examinar o anel, olhando por cima dos óculos, com uma expressão enigmática, disse à aluna:
- Este anel vale mesmo muito. Pode ter um valor incalculável.
Depois, a aluna foi ter com o professor e entregou-lhe o anel. Este interpelou a aluna:
- Entendeste agora quanto vale a vida humana?
- Não. Respondeu a aluna”.

Este texto, retirado do livro “O desafio de viver”, ed. do Sec. Nac. Educação Cristã, p. 60, é suficientemente esclarecedor, quanto ao valor dado pelos que estão mais capazes de avaliar a coisa em apreço. Torna-se assim dispensável qualquer comentário mais alongado sobre os resultados do referendo último. Faça o leitor os seus próprios comentários.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

DEIXEMOS QUE OS EXEMPLOS FALEM

A Marta, nos seus felizes doze anos, um dia resolveu convidar a sua colega e amiga Inês para com ela passar o fim-de-semana.

Com o entusiasmo característico da idade, uma e outra obtiveram o consentimento dos pais, para algo que viria a ter efeitos muito para além da simples experiência.

Contrariamente a outros pais que em situação idêntica adoptariam uma atitude do género: “elas que se entendam”, os pais da Marta não se furtaram às tarefas necessárias para lhes proporcionarem o mais agradável convívio. Pela via do serviço, associaram-se a elas de uma forma que, embora simples e natural para eles, viria a pesar positivamente em casa da Inês.

Para esta, a experiência ultrapassou todas as expectativas, pois, não esperava ser rodeada do que considerou serem tantas atenções, que chegaram ao ponto de lhe ser servido o pequeno-almoço na cama. Aquela forma de acolhimento, não constituiu qualquer tipo de cuidado acrescido para a família que a recebeu, dado acontecer por vezes entre cada um dos seus membros, disputarem a oportunidade de servirem o outro, em perfeita reciprocidade.

Para a Marta e a Ana, sua irmã mais velha, não é necessário que os pais se preocupem com ensinamentos dos valores que há algum tempo a sociedade tem vindo a pôr de lado, dado que a mais elevada forma de transmissão desses valores está implícita na sua prática de vida.

Num primeiro balanço, em comentário com a amiga, a Inês teve dificuldade em encontrar as palavras que melhor definissem o que para ela tinha sido aquele fim-de-semana. Ele foi tão positivo que levou a que sua mãe se dirigisse a quem tão bem a tratou, não apenas para agradecer pelo facto em si, mas também por o mesmo a ter despertado para uma visão mais real de alguns pontos que estaria a descurar no crescimento da filha.

Há nesta história um aspecto curioso: estas duas mães são professoras, e como que ao jeito de matéria escolar, ambas nos deixam duas grandes lições: a primeira, a mãe da Marta, chama-nos a atenção para algo que constitui o ponto de equilíbrio a partir do qual devemos educar os nossos filhos. Desta lição que a mãe da Marta nos deixa, podemos concluir que, quanto ao que damos e ao que deveríamos dar aos nossos filhos, o mais certo é estarmos a dar-lhes o que apenas lhes serve para estarem a entrar no deserto, e, por falta de tempo, de uma carreira profissional ou qualquer outra razão, não lhes damos o amor na sua forma mais simples.

É mais fácil dar-lhes aquilo que para nosso comodismo dizemos ser natural nos dias de hoje, como sendo por exemplo a liberdade ou permissão de irem aqui e ali, os ténis ou qualquer outra coisa de marca, do que dar-lhes tudo ou apenas aquilo que os levará a serem uns adultos sempre e em tudo positivos.

Há tantos, tantos aspectos a corrigirmos. Cabe a cada um, um exame de si próprio para, depois de encontrados os erros, nos decidirmos a aceitar o sacrifício que implica ser pais com nota elevada.

Passando, para terminar, à segunda e curta lição:

Quanto mais elevado é o grau do mestre, tanto maior terá que ser o valor que o aluno dá ás suas lições. Assim, saibamos ser alunos à altura desta lição que nos deixa a mãe da Inês, que, sendo professora universitária, teve naturalidade e humildade quanto baste, para reconhecer que havia aspectos a corrigir no seu papel de mãe.

Se alguém quiser ver a sua grandeza, não atenda aos títulos ou posição, olhe antes para os seus feitos.

SANTOS, Jose Augusto, Duas Grandes Lições. In, Notícias de Chaves, nº. 2468 (24.04.1998).

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

O HÁBITO FOI A SUA ARMADURA

Depois de já ter passado pelas fases antecedentes, encontrava-me à porta do RX, a aguardar que a minha vizinha, que acompanhei ao Hospital de Santa Maria, fosse chamada. Na mesma situação, a aguardar na sala de espera como acompanhante, encontrava-se uma jovem Dominicana, com a qual procurei meter conversa.

Sem deixar de me dar atenção, não tirava o olhar do canto oposto da sala, passando, por dever de educação, a explicar-me o motivo pelo qual mantinha centrada a sua atenção lá no canto mais distante: procurava assegurar-se que a jovem com quem ela interviera, repreendendo-a, se mantinha junto de sua mãe, que se encontrava numa maca com a cabeça ferida e a necessitar dos cuidados da filha enquanto não era chamada para os exames seguintes, cuidados como o de lhe ir mantendo na cabeça algo que o médico recomendara.

A Irmã Filipa Alexandra, no meio de toda aquela gente que se encontrava na sala, não se distinguiu apenas por trajar um hábito religioso. Enquanto uns meneavam a cabeça e outros cochichavam com quem estava ao lado, censurando o desprezo da jovem pela sua mãe que, sofrendo, reclamava em vão os seus cuidados, a Irmã Filipa concertou o elo partido.

Dizia-me que, consciente do risco, admitiu a possibilidade de ser mal sucedida, podendo mesmo ser hostilizada pela jovem. Mas a decidida freira, digna herdeira do carácter espiritual da sua fundadora, a heroína Madre Teresa de Saldanha, confiou na armadura que o simples hábito religioso poderia constituir naquele momento.

Foi essa armadura, para o mundo a melhor identificação de que quem com ela se reveste é pessoa consagrada a Cristo e à Sua Igreja, que a encorajou a pensar que não seria desobedecida nem mal tratada pela jovem (que me pareceu ser já adulta). E de facto, o erro desta, cedeu perante a determinação e a autoridade de quem ousa agir segundo o impulso do Espírito.

Pudéssemos muitas vezes encontrar pelos caminhos do mundo os consagrados e as consagradas identificados como tal, e a sua simples presença, independentemente do quão próximo ou afastado da santidade possa estar cada um, constituiria não só uma barreira às tendências do mal, mas ao mesmo tempo um conforto e um estímulo para quantos possam inclinar-se para o bem.

A vós, homens e mulheres consagrados, que o Espírito d’Aquele que um dia vos chamou para a Messe ilumine as vossas inteligências e perfume o vosso coração, de modo a sentirdes-vos chamas vivas do Espírito Santo que em cada um deseja encontrar a disposição necessária para que, por todos os meios, possais ser um Sinal visível da Sua presença no meio dos homens.

_________
P. S. - Depois de escrever este último parágrafo e ter editado o texto, vejo que neste mesmo dia a Santa Sé anunciou a realização de um consistório na manhã do próximo dia 23, para a canonização de cinco Consagrados, quatro presbíteros e uma religiosa...

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Falando de um susto a um amigo pelo Messenger…

História verídica ou ficcionada, que uma amiga me enviou por e-mail, não deixa de ter importância que a todos preocupe, neste mundo da Internet, razão pela qual aqui vo-la apresento:

«Após deixar os livros no sofá ela decidiu lanchar e entrar on line. Assim, ligou-se com o seu nome de código (nick): Docinho14. Procurou na sua lista de amigos e viu que Meteoro123 estava ligado. Enviou-lhe uma mensagem instantânea:

Docinho14: Oix. Que sorte estares aí! Pensei que alguém me seguia na ruahoje. Foi mesmo esquisito!

Meteoro123: Lol. Vês muita TV. Por que razão alguém te seguiria? Não morasnum local seguro da cidade?

Docinho14 ; Com certeza. Lol. Acho que imaginei isso porque não vi ninguémquando me virei.

Meteoro123: A menos que tenhas dado o teu nome on line. Não fizeste isso,pois não?

Docinho14: Claro que não. Não sou idiota, já sabes.

Meteoro123: Jogaste vólei depois das aulas, hoje?

Docinho14: Sim e ganhamos!

Meteoro123: Óptimo! Contra quem?

Docinho14: Contra as Vespas do Colégio da Sagrada Família. LOL. Os uniformes delas são um nojo! Pareciam abelhas. LOL

Meteoro123 : Como se chama a tua equipa?

Docinho14: Somos os Gatos de Botas. Temos garras de tigres nos uniformes.São impecáveis.

Meteoro123: Jogas ao ataque?

Docinho14: Não, jogo à defesa. Olha: tenho que ir.
Tenho que fazer os TPC antes que cheguem os meus pais. . Xau!

Meteoro123: Falamos mais tarde. Xau.

Entretanto, Meteoro123 foi à lista de contactos e começou a pesquisar sobre o perfil dela. Quando apareceu, copiou-o e imprimiu-o. Pegou na caneta e anotou o que sabia de Docinho14 até agora.
Seu nome: Susana
Aniversário: Janeiro 3, 1993.
Idade.: 14.
Cidade onde vive: Porto.
Passatempos: vólei , inglês, natação e passear pelas lojas.

Além desta informação sabia que vivia no centro da cidade porque lho tinha contado recentemente. Sabia que estava sózinha até às 18.30 todas as tardes até que os pais voltassem do trabalho. Sabia que jogava vólei às quintas-feiras de tarde com a equipa do colégio, os Gatos de Botas. O seu número favorito, o 4, estava estampado na sua camisola. Sabia que estava no oitavo ano no colégio da Imaculada Conceição. Ela tinha contado tudo em conversas on line. Agora tinha informação suficiente para encontrá-la.

Susana não contou aos pais sobre o incidente ao voltar do parque. Não queria que ralhassem com ela e a impedissem de voltar dos jogos de vólei a pé. Os pais sempre exageram e os seus eram os piores. Ela teria gostado não ser filha única. Talvez se tivesse irmãos, os seus pais não tivessem sido tão superprotectores. Na quinta-feira, Susana já se tinha esquecido que alguém a seguira.

O seu jogo decorria quando, de repente, sentiu que alguém a observava. Então lembrou-se. Olhou e viu um homem que a observava de perto. Estava inclinado contra a cerca na arquibancada e sorriu quando o viu. Não parecia alguém de quem temer e rapidamente desapareceu o medo que sentira. Depois do jogo, ele sentou-se num dos bancos enquanto ela falava com o treinador. Ela apercebeu-se do seu sorriso mais uma vez quando passou ao lado. Ele acenou com a cabeça e ela devolveu-lhe o sorriso. Ele confirmou o seu nome nas costas da camisola. Sabia que a tinha encontrado.

Silenciosamente, caminhou a uma certa distância atrás dela. Eram só uns quarteirões até casa dela. Quando viu onde morava voltou ao parque e entrou no carro. Agora tinha que esperar. Decidiu comer algo até que chegou a hora de ir à casa da menina. Foi a um café e sentou-se.

Mais tarde, essa noite, Susana ouviu vozes na sala. 'Susana, vem cá!', chamou o seu pai. Parecia perturbado e ela não imaginava porquê. Entrou na sala e viu o homem do parque no sofá. 'Senta-te aí', disse-lhe o pai, 'este senhor acaba de nos contar uma história muito interessante sobre ti'.

Susana sentou-se. Como poderia ele contar-lhes qualquer coisa? Nunca o tinha visto senão nesse mesmo dia!

'Sabes quem sou eu?' perguntou o homem.

'Não', respondeu Susana.

'Sou polícia e teu amigo do Messenger - Meteoro123'.

Susana ficou pasmada. 'É impossível! Meteoro123 é um rapaz da minha idade! Tem 14 e mora em Braga!'.

O homem sorriu. 'Sei que te disse tudo isso, mas não era verdade. Repara, Susana, há gente na Internet que se faz passar por miúdos; eu era um deles. Mas enquanto alguns o fazem para molestar crianças e jovens, eu sou de um grupo de pais que o faz para proteger as crianças dos malfeitores. Vim para te ensinar que é muito perigoso falar on line. Contaste-me o suficiente sobre ti para eu te achar facilmente. Deste-me o nome da tua escola, da tua equipa e a posição em que jogas. O número e o teu nome na camisola fizeram com que te encontrasse facilmente.

Susana gelou. 'Quer dizer que não mora em Braga?'.

Ele riu-se: 'Não, moro no Porto. Sentiste-te segura achando que morava longe, não é?'' Tenho um amigo cuja filha não teve tanta sorte: foi assassinada enquanto estava sozinha em casa. Ensinam-se as crianças e jovens a não dizer a ninguém quando estão sozinhos, porém contam isso a toda a gente pela internet. As pessoas maldosas enganam e fazem-se passar por outras para tirar informação de aqui e de lá on line. Antes de dares por isso, já lhes contaste o suficiente para que te possam achar sem que te apercebas. Espero que tenhas aprendido uma lição disto e que não o faças de novo. Conta aos outros sobre isto para que também possamestar seguros'.

'Prometo que vou contar!'.»

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

VINHA DE RAQUEL - Um encontro com a Misericórdia de Deus

Há já algum tempo que tenho vindo a acompanhar, como Psicóloga, os Retiros da Vinha de Raquel. É nessa qualidade que me pediram para escrever sobre os Retiros. Mas ser técnica não faz de mim menos pessoa nem menos pecadora, por isso é nessa qualidade que eu escrevo. Em cada Retiro assistimos a verdadeiros milagres de conversão e também nós percorremos o caminho, partilhando a dor e a alegria, sustentando o sofrimento com o nosso consolo e o nosso abraço, entregando o desespero com as nossas próprias lágrimas. Santa Teresa de Ávila dizía a Jesus “Na terra não tendes outro corpo senão o nosso, não tendes outros pés senão os nossos, não tendes outras mãos senão as nossas. Os nossos olhos revelam a Vossa misericórdia para com o mundo, os nossos pés levam-Vos a fazer o bem. É com as nossas mãos que, doravante, podeis abençoar” e não vejo que se possa descrever melhor aquilo a que somos chamados na Vinha de Raquel.

Porque é que uma mulher ou um homem vivem trinta, quarenta ou mais anos amargurados e angustiados com o peso da culpa de alguma coisa que fizeram e que na altura lhes parecía ser o mais correcto? Eu penso que isto se deve, não apenas à lesão da própria natureza relacional da pessoa, mas, mais ainda, ao desejo de Deus a receber de volta. Neste sentido, a culpa é boa porque é o sinal de inversão de marcha que nos permite retomar o caminho da salvação. Assim, o primeiro passo do Retiro é reconhecer a culpa, a responsabilidade, enfrentar a irreversibilidade do acto, tendo sempre presente a Misericórdia de Deus. Enfrentar o desespero com os olhos postos na Esperança.

O segundo passo é o resolver de conflitos que inquietam o coração, o perdoar a alguém. Verbalizar a raiva que mina por dentro, libertar-nos da zanga contra quem nos fez mal, é por vezes tão doloroso, que não o conseguimos fazer sem ajuda. Trorna-se quase mais fácil pedir perdão do que perdoar. Mas um coração que não consegue perdoar, também não encontra espaço para acolher o perdão. É verdadeiramente um exercício de arrumar a casa, limpar o pó, deitar fora o lixo, tirar as manchas das paredes, e finalmente prepará-la para receber algo que a vai encher de novo e dar-lhe uma nova vida. Um exercício que nos esgota fisica e psicologicamente, mas que nos faz desejar ardentemente acolher a própria fonte da vida.

No terceiro passo tratamos de refazer ligações. Quando uma mulher dá à luz uma criança, ela é a ligação fisica da criança com o mundo. Quando um aborto ocorre, a criança é a ligação espiritual da mulher com Deus. Por isso é tão importante o restabelecer a ligação com o bébé. Ligação essa que a circunstância da morte quase anulou, mas não destruiu. As memórias, dificilmente suportáveis, só podem ser avivadas porque são acompanhadas da compaixão de Cristo. Nesta fase trabalha-se o luto e a perda. Chora-se a morte junto da Cruz enquanto Cristo se entrega por nós.

Finalmente, chegamos ao dia em que encontramos o sepulcro vazio. Os bébés, que entretanto passaram a ser os “nossos bébes”, foram entregues a Cristo, e a certeza da Sua Ressurreição é também a certeza de que eles já gozam da união eterna com Deus e que na companhia dos Anjos e dos Santos intercedem por nós. É nesta altura que temos a certeza que estas crianças olham as mães e os pais, não com desejo de vingança ou castigo, mas com o coração de Deus, desejoso que o Seu perdão seja acolhido.

Depois de um caminho doloroso, muito doloroso, que até parecia ser impossível, dá-se o encontro com Cristo Ressuscitado que nos mostra as suas feridas ao mesmo tempo que nos dá a Sua paz. Sinal paradoxal este, no entanto bem real! Cristo mostra-nos que a Sua paz não se alcança através de um mero exercício psicológico ou de um esforço de esquecimento ou abstracção da realidade, mas é o fruto do Seu próprio sofrimento e da Sua morte na cruz. Não se encontra negando a dor, mas antes enfrentando-a com coragem e honestidade e entregando-a na Cruz.

Temos sempre bem claro que a graça de Deus, ainda que através da nossa intervenção, age muito para além das nossas expectativas e por isso, nos confiamos a Maria, Mãe Consoladora, pedindo-lhe que nos ensine a responder a Deus como ela fez: entregando-se ela acolheu Deus, e porque O recebeu, entregou-O.


Maria José Vilaça


* * *

Como falar da Vinha de Raquel:
“Ouvi falar do aborto de uma forma diferente. Estes falam de cura! É um projecto chamado Vinha de Raquel.. Dizem que é para quem vive atormentado, angustiado, sem esperança e afastado de Deus…”

Como nos pode ajudar?
Donativos A Vinha de Raquel vive de donativos. Cada Retiro mobiliza perto de 60 pessoas, desde os adoradores às pessoas que organizam a logistica e acompanham o Retiro (temos sempre um Padre, um Psicólogo, um coordenador e alguns monitores). Embora todos sejam voluntários, precisamos de cobrir as despesas do Retiro e de divulgação. No início deste ano, quando verificámos que não tinhamos dinheiro para fazer mais nenhum Retiro, Cina Leal, uma amiga do projecto escreveu um livro de poemas chamado “Na Orla do Manto” e ofereceu-nos todo o lucro das vendas. Com isso, fizemos um Retiro e temos ainda dinheiro para o próximo. Acreditamos que Deus continuará a providenciar, semeando a generosidade nos corações de quem entender o objectivo deste trabalho.

Oração:
O nosso sustento é a oração: desde o minuto em que uma pessoa nos contacta expressando o desejo de cura, há uma outra pessoa encarregue de rezar por ela, para que seja ajudada na decisão. Durante o Retiro há um conjunto de pessoas em Adoração permanente no local do Retiro. Vinha de Raquel precisa sempre de voluntários para rezar!

Não sofra em silêncio.
Ninguém esquece um filho que não nasceu - se a sua vida ou a de alguém que conhece, foi tocada pela dor do aborto, a Vinha de Raquel propõe um caminho para recuperar a paz interior. Durante um fim de semana, num ambiente de Retiro, a partir de uma partilha espiritual centrada em Jesus, chegamos ao encontro com a Sua Misericórdia.



Coordenadora em Portugal: Cláudia Müller
Sacerdote: Pe. Fernando Paiva
Psicóloga: Drª Maria José Vilaça
Telm. 917354602.
E-mail: vinha.raquel@email.com
http://www.rachelsvineyard.org/

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Muitos anos depois dos aerogramas, escrevo-te novamente umas palavras

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2007


Meu querido irmão,

Já perdi a conta aos anos que já passaram sem me dirigir a ti por escrito. Se não me engano, nunca mais o terei feito desde que, juntamente com a mãe, te escrevia duas letrinhas nos aerogramas que recebias no ultramar.

Na altura, o recebermos um aerograma teu e o enviar-te outro, para o qual muitas vezes a mãe me avisava de que estava a escrever-te, convidando-me a dizer-te também qualquer coisa, era para mim um acto religioso, talvez mais sentido interiormente como tal, pela falta de capacidade de expressar pela escrita o amor e a saudade que tinha do meu “Caia”, como dizia quando começava a pronunciar as primeiras palavras. Agora que já sou pai há quase vinte e dois anos, reconstituindo em minha memória tantos momentos de então, vejo com grande clareza a importância, a grandeza e, diria mesmo a qualidade de sentimentos que ocupavas no coração da mãe. Relembrando esses momentos, é com grande emoção que sou obrigado a afirmar: Como a nossa mãe te amava, meu querido irmão!..

No passado Domingo, numa sessão de esclarecimento na minha Paróquia para que ninguém tivesse dúvidas quanto à posição da Igreja relativamente às questões a referendar amanhã, intervindo, agradeci a Deus e aos nossos pais por eu poder estar a falar aos presentes, dado que eu já era o 12º filho, tentando com isso refutar esse conceito tão puramente materialista, do não poder-se hoje ter mais do que um ou dois filhos, por não haver condições...

Que grande legado os nossos queridos pais nos deixaram, quando na sua escala de importância para nós, seu maior desejo sempre foi o de que fossemos bons. Hoje podemos entender quão grande pedagogo e psicólogo, chegando mesmo a brincar com a filosofia, foi nosso querido pai. Mais de vinte anos passados desde que nos deixou, ainda algumas vezes me ocorrem lágrimas pela tão grande saudade do seu ar brincalhão, da sua Sabedoria, do seu sorriso, enfim, do nosso tão amado pai. Bem que nos podemos sentir abençoados pelos pais que tivemos, e entre nós, sentirmos que foram uns pais modelo, segundo os parâmetros cristãos.

Desse grande legado ou riqueza que nos deixaram, faz parte a preocupação que temos uns pelos outros, que não é mais que o fruto do amor que vivemos. Aquelas situações em que nas férias, quando estamos juntos, dificilmente seguimos o que fora anteriormente planeado, porque um de nós ficou impossibilitado e tem que ir a outro lado, acabando por tudo ser modificado, só pode mesmo acontecer numa família como a nossa, porque, embora todos estejamos bem com a família que cada um constituiu, só nos sentimos completos tendo os irmãos connosco. E dado que há anos em que isso apenas é possível por três ou quatro dias, maior é a necessidade que temos uns dos outros, necessidade que passa por manifestações tão simples de amor, como sendo por vezes uma brincadeira ternurenta, o termos que “andar sempre aos beijinhos”, como por vezes dizem alguns cunhados, etc.

Depois de tudo isto, é legítimo que te perguntes do porquê de nem uma visita nem um telefonema, desde que no outro dia soube o que te tinha acontecido.

O telefonema, é para mim pouco válido para estas coisas, porque tenho necessidade de estar mesmo junto da pessoa. E depois também uma outra razão pela qual ainda não o fiz, foi por querer surpreender-te pessoalmente. Mas infelizmente, um dia é uma coisa, outro dia é outra, e o tempo tem passado, até que decidi pôr-me a escrever-te duas palavrinhas, para te dizer que muito te tenho envolvido de amor em oração, meu amado irmão. E ainda que ao mundo possa parecer o contrário, por não te ter ainda visitado, esse amor que nossos pais nos deixaram como herança e que eu procuro alimentar pela prática dos Sacramentos, tem um tal volume em mim, que, só enquanto escrevia este texto, fui obrigado a várias pausas para reparar os diques da emoção, por se revelarem demasiado fracos para suster a força do caudal do amor de irmão para irmão.

Que esta e a verdadeira força do Amor te envolvam, e que de lá do Céu, onde estou certo nossos pais nos estão a amar de uma forma bem diferente, recebas todos os dons necessários para só desejares o Amor.

Teu irmão que tanto te ama, ainda que de uma forma imperfeita,
Zé Augusto

domingo, 4 de fevereiro de 2007

CELEBRAR A VIDA, Quando o Sofrimento é Doação

Clara Badano nasceu em 1971 em Sassello (Itália), filha de Ruggero e Teresa.

Aso nove anos, conheceu outras crianças, que já tinham como objectivo “escolher Deus” como ideal, na sua vida.

À medida que vai crescendo, sobressai nela o olhar límpido e a beleza. Aplica-se-lhe a expressão de S. Agostinho: “o amor torna-nos bonitos”. É uma grande desportista e gosta muito de cantar e dançar, vestindo-se com elegância. É muito exigente com os seus sentimentos. Está sempre rodeada de amigos e amigas.

Aos 17 anos, diante de uma reprovação a Matemática, procura amar o rosto abandonado de Jesus nessa contrariedade. Depois num certo dia, ao jogar ténis, sente uma dor fortíssima nas costas. Algumas recaídas levam a aprofundar os exames médicos e, por fim, chega o diagnóstico: um tumor dos mais graves e dolorosos. Recebe a notícia em silêncio e sem chorar.

No hospital, preocupa-se com os outros e esquece-se do forte sofrimento para ajudar uma rapariga toxicodependente. Depois de duas operações, a quimioterapia faz-lhe cair o cabelo. Diante de cada madeixa de cabelo que perde, repete um intenso: “por ti, Jesus”.

Os pais ajudam-na a intuir que o amor de Deus se esconde nas situações mais incríveis. Ela aceita e coloca-se no amor. Assim, oferece as suas poupanças a um amigo que vai partir para África. A força vem-lhe de Jesus na Eucaristia, que recebe frequentemente e com muita alegria.

Os médicos espantam-se com a sua maturidade. O próprio cardeal de Turim vai visitá-la e pergunta-lhe: “tens uns olhos estupendos, uma luz maravilhosa. De onde te vêm?” Ela responde: “procuro amar muito Jesus”.

As últimas palavras para a mãe foram: “sê feliz, porque eu sou feliz”. Duas mil pessoas participaram no funeral, experimentando uma serenidade e santidade contagiosas, sentindo-se levadas a escolher Deus como o tudo da sua vida.

Ainda hoje, Clara continua a entusiasmar muitos jovens a amarem Jesus como o grande segredo da felicidade…


Texto e imagem tirados do livro O DESAFIO DE VIVER
Ed. do Secretariado Nacional da Educação Cristã, p.50
(o título é meu)

domingo, 14 de janeiro de 2007

OS TRÊS REIS MAGOS

Por meio de uma especialíssima graça concedida a todos os crentes através da Beata Anna Catharina Emmerich*, Jesus mostrou à Sua serva os acontecimentos que fizeram parte da Sua infância, bem como do Seu Nascimento. Esses relatos chegam-nos hoje pela Editora Paulus, no livro A Infância de Jesus.
Das muitas maravilhas pelo Senhor reveladas e que os Evangelhos não nos puderam fazer chegar, consta um breve apontamento da história de cada uma daquelas distintas figuras, cujos nomes próprios desconhecíamos e que o tempo, a fantasia, o relativismo, o racionalismo, etc., procuram situar no simples domínio das fábulas.
Os nomes dos três Reis Magos, enquanto pagãos, eram: Mensor, Teokeno e Sair. Dois deles, porém, receberiam nome cristão ao serem baptizados.
Mensor, branco mas de tez morena, foi baptizado por São Tomé, a seguir à morte de Jesus, recebendo no baptismo o nome, Leandro.
Teokeno, de cor branca, o que estava doente quando Jesus o visitou, recebeu no baptismo o nome, Leão.
Sair, de cor escura, já tinha falecido ao tempo do Senhor, recebendo por isso o Baptismo de Desejo.
Por causa das suas qualidades, ficariam conhecidos como Gaspar, Melchior e Baltasar.
- Gaspar significa aquele que vai com amor;
- Melchior, o que anda com suavidade, e guia usando de mansidão e acariciando;
- Baltasar, o que obedece de imediato e sem discutir, isto é, sujeita a vontade própria à vontade de Deus.
Mensor, que é como dizer, o cristão Leandro, era da Caldeia, e a cidade onde nasceu tinha um nome parecido com Acaiaia ou Acaiacul. Fora edificada numa ilha e era rodeada por um rio. Porém, Mensor residia habitualmente nas terras de pastagens, no meio dos rebanhos (p.133).
Sabemos pelo Evangelho (Mt 2, 1ss) que os Reis Magos levaram ao Menino ouro, incenso e mirra, mas, para além disso, nada mais sabíamos. Agora, pela revelação de Jesus à Beata Catharina Emmrich, temos um dado novo: Por terem já falecido, no início da Sua vida pública Jesus quis honrar os três primeiros pastores a quem o Anjo anunciou o Nascimento do Salvador. Seus filhos, também pastores, conduziram Jesus à gruta tumular onde eles jaziam, e, junto aos corpos, Jesus encontrou as oferendas que os santos homens, os Reis Magos, também fizeram àqueles pastores, contendo um cofre pequenas barras de ouro, e outro preciosos tecidos bordados a fio de ouro. Interrogado sobre qual o destino a dar àquelas oferendas, Jesus disse-lhes que as necessidades da Igreja nascente seria um bom destino.**
Saibamos nós ter com as riquezas uma relação tão saudável quanto aquela que demonstraram os Reis Magos, que, sem os ensinamentos de vinte séculos de cristianismo, nos dão tão simples lição de partilha cristã, assim como os pastores, a quem bastou o que já tinham de mais valioso, que era o terem testemunhado o indizível mistério de Deus ter descido à condição humana, riqueza perante a qual nem o ouro tinha valor suficiente para a ele se prenderem.
Que os Reis Magos suscitem em nós o desejo de seguirmos pelo Caminho por eles trilhado e nos animem na jornada, para que os esplendores do Deus Menino tornem mais confortável o Seu nascimento no casebre que é o nosso coração.

*Beatificada em 3 de Outubro de 2004, por João Paulo II
**Cf. Vida Pública de Jesus - I Ano, Ed. Paulus, de Ana Catarina Emmerich, pp 67, 68

José Augusto Santos